Notas do Pinheiro

Jornalismo Analítico

domingo, outubro 23, 2005

Nas entrelinhas

WLADMIR ÁLVARO PINHEIRO JARDIM
BELO HORIZONTE


Após uma semana de ausência, reencontro a crise numa curva, hesitando entre a dissipação melancólica — com algumas cassações e parcos resultados nas investigações — e o recrudescimento pela abertura de uma investigação sobre o valerioduto mineiro.

A situação do senador Eduardo Azeredo ficou mais difícil depois da revelação de que, em 2002, ainda era socorrido por Marcos Valério, que pagou uma dívida de campanha de R$ 700 mil. Sem falar no caixa dois de 1998. Os tucanos estão amargamente arrependidos de não terem decidido seu afastamento quando o assunto veio à tona. Não quiseram, naquele momento, ser comparados ao PT, que afastara José Genoino da presidência. Ficou pior. Se José Serra reassume seu posto, para transmiti-lo ao senador Tasso Jereissati, que deve ser eleito no próximo mês, pode sobrar-lhe a ingrata tarefa de ficar explicando os fatos mineiros. Deixar Azeredo no cargo poderá ser desgastante para todo o PSDB.

Mas no PT e no governo, não se vê disposição para este embate. Se ela existisse, o partido já teria pedido a cassação de Azeredo — um passo irreversível — no Conselho de Ética do Senado. O que parecem desejar os petistas é manter o assunto em cartaz, em busca de um acordo com o PSDB para encerrar logo a crise. Com as cassações já em curso e o pouco que foi esclarecido. Sabemos, ainda que de forma incompleta, quem recebeu através de Marcos Valério, tanto em 1998 como no governo Lula. Mas continuamos ignorando, nos dois casos, de onde veio o dinheiro.

O eleitorado mostrou no referendo de domingo que está a postos e bem acordado. Os políticos que tratem de decifrar as tantas mensagens embutidas na colossal votação do “Não”, inimaginável semanas atrás. Obviamente a primeira delas foi de censura aos governantes, federais e estaduais, pela deficiência das políticas de segurança. Mas disseram ainda mais os eleitores, neste ensaio sobre o que farão nas urnas de 2006.

No fim de Junho, quando a crise golpeava forte o PT e o governo, os defensores do “Sim” receberam do TSE o aviso de que se a regulamentação não saísse logo não seria possível realizar o referendo. O governo vislumbrou aí a chance de colocar um assunto diferente em pauta para atenuar a crise e espertamente somou forças com os defensores do “Sim”. Aprovou-se a regulamentação a toque de caixa. O que não se esperava é que das urnas viesse este brado que exige mais que a propalada “humildade” diante do resultado. Alguma resposta objetiva terá que ser dada, e não apenas pelo governo federal. O governador de São Paulo Geraldo Alckmin, apenas enfia a cabeça na areia quando diz que o resultado foi uma derrota para o governo Lula. Foi, sim, mas para os governadores, que ficaram longe da campanha, também.

Não é razoável pensar que dois terços dos eleitores tenham ou queiram ter uma arma. Estes devem ser uma minoria. A maioria aproveitou para manifestar outros sentimentos, a começar pela imensa indignação política em função de tudo o que a crise tem posto para fora. Disse uma espécie de “fora todos”, slogan que apareceu em algumas manifestações contra a corrupção. Esperneou contra a insegurança mas rejeitou também o lero-lero político, inclusive a linguagem sofisticada da campanha do “Sim”, que trocou os políticos por gente mais glamourosa. O eleitorado preferiu a retórica quase tosca da campanha do “Não”, onde pessoas comuns rejeitavam a tentativa de lhes tirar um direito. Argumento falacioso, mas convenceu.

Outro aviso do eleitorado aos candidatos a 2006: cuidado com as pesquisas. Em agosto, o “Sim” alcançava até 80% de preferência. Nas últimas semanas o “Não” cresceu, mas ainda assim as pesquisas não captaram seu real tamanho. Quieto e dissimulado, o eleitorado só mostrou sua bronca na urna. O rancor eleitoral, com alguma freqüência, abre caminho para as aventuras eleitorais.

Mas restou algo de bom. O que o eleitorado mostrou é que está disposto a manifestar sua vontade sempre que for chamado a fazê-lo. Fala-se em abstenção alta mas foi pouco superior à média histórica até de eleições presidenciais. Viu-se a disposição para as consultas no calor das discussões na reta final e na disposição arregimentadora dos vencedores

A vitória do “Não” no referendo sobre o desarmamento evidencia mais uma vez que existe espaço no eleitorado brasileiro para uma candidatura conservadora, que priorize conceitos do tipo “lei e ordem”. Foi uma reviravolta até certo ponto surpreendente, pela diferença acachapante, motivada por uma série de preconceitos e manipulações de natureza política que levantaram questões que não estavam realmente em jogo, mas que acabaram influenciando decisivamente o resultado final.

Como a idéia de que a proibição de comercialização das armas de fogo atingiria um direito dos cidadãos. Não foi, portanto, uma derrota apenas do governo Lula e do PT, embora a insatisfação com ele, e a desconfiança que gera em boa parte da classe média brasileira, tenha permitido alimentar teorias conspiratórias como a de que o desarmamento serviria a propósitos políticos de um governo não-democrático, pronto para dar um golpe na sociedade civil, desorganizada e desarmada.

A vitória do “Não” foi uma derrota mais ampla, dos partidos de perfil social-democrata como o PSDB e o PPS, que também defenderam o fim da comercialização. Parte ponderável da sociedade civil que deu a vitória ao “Não”, misturando conceitos e preconceitos habilmente manipulados na campanha eleitoral pelos marqueteiros do “Não”, é a mesma, basicamente, que em 2002 flertou com candidaturas conservadoras tão díspares quanto as de Roseana Sarney e Ciro Gomes, antes de se fixar em Lula para dar fim ao reinado de oito anos dos tucanos.

Esse eleitorado, que já tinha o PFL como uma espécie de “avalista” do governo do PSDB, obrigou o PT a quebrar a hegemonia de alianças tradicionais à esquerda com o PCdoB e o PSB e a fazer alianças políticas conservadoras, assumindo compromissos com a estabilidade e a não ruptura da ordem vigente antes de confirmar seu voto em Lula.

A política brasileira, polarizada há mais de dez anos entre PT e PSDB, dois partidos com a mesma raiz social-democrata, não tem dado espaço para políticos “de direita”, embora não prescinda deles para “controlar” os partidos de esquerda, que estão mais bem posicionados em São Paulo, onde se concentra 25% do eleitorado. Embora a polarização política esteja na esquerda, o que é uma distorção da representação da sociedade brasileira, nenhuma vitória acontece, nem presidente governa, sem a colaboração da direita. Além do mais, a direita brasileira, que já foi representada por políticos do nível de um Carlos Lacerda, acabou nos últimos anos estigmatizada pela atuação de oligarcas retrógrados ou de políticos manchados pela corrupção, como Collor ou Maluf.

Sabendo disso, o PFL, principal partido liberal brasileiro, está se reorganizando e tenta apresentar-se como uma alternativa “moderna” aos partidos hegemônicos de esquerda. Tem o diagnóstico político correto, mas carece de nomes nacionais que o impulsione à Presidência da República. Esta foi a alternativa tentada primeiro com Roseana Sarney, e agora com o prefeito do Rio, Cesar Maia, cuja candidatura à Presidência não decolou. Não foi por acaso que Cesar mudou seu voto para o “Não”, dizendo-se convencido de que em uma cidade violenta como o Rio é preciso ter uma arma para autodefesa. Foi uma adesão que, embora tardia, o deixou mais conectado com o eleitorado que pretende representar. A chance de o PFL se implantar mais fortemente em São Paulo pode surgir com a candidatura tucana a presidente.

Em qualquer dos casos, seja o candidato José Serra ou Geraldo Alckmin, o PFL ficará com um cargo importante, ou a prefeitura ou o governo do estado, em condições de se organizar melhor no maior estado brasileiro. Talvez seja um pouco tarde, pois o próximo — ou Lula ou Serra ou Alckmin — será provavelmente o último de quatro mandatos presidenciais seguidos exercidos por paulistas, o que já vem provocando reações políticas em estados importantes do Nordeste, em Minas e no Rio. Isso se, como a vitória do “Não” no referendo mostrou ser possível, não surgir durante a campanha eleitoral um candidato alternativo que preencha o espaço conservador.

Mesmo tendo defendido o “Sim, o governador Geraldo Alckmin tem um perfil mais afinado com esta tendência demonstrada pelo eleitorado, o que pode complicar a disputa dentro do PSDB, que hoje tem o prefeito José Serra como o mais indicado competidor, embora demonstre incapacidade de crescimento entre o eleitorado. Os índices de Serra nas últimas pesquisas estão estacionados, e sua posição contra Lula depende de como os índices do presidente se mexem.

O que o referendo do desarmamento deixou evidenciado é que a polarização entre PT e PSDB pode ser quebrada por uma candidatura independente que encarne o espírito conservador que dominou o eleitorado brasileiro na defesa da comercialização das armas de fogo, como se fôssemos realmente o país descrito pelo correspondente do "New York Times" Larry Rohter, habitado por pessoas que estão dispostas a atirar umas nas outras. Na verdade, o que ficou demonstrado é que um candidato que conseguir transformar esse sentimento de insegurança e desamparo que domina a sociedade brasileira em uma plataforma política, tem o caminho aberto para uma boa campanha rumo à Presidência da República.